domingo, 15 de março de 2015

Vamos falar de reforma política?


Mudar o país. É este o mote das manifestações dos dias 13 e 15. É este o mote que deve crescer de forma apartidária e não passional, afinal, parte-se do pressuposto que direita e esquerda querem o melhor para o país. Agora, mudar como?

Mudar com impeachment? Não. Impeachment é um instrumento que não possui na sua definição os atributos necessários para mudar a política do país, que é ultrapassada e possui fraca capacidade de representatividade. 

Para os iletrados politicamente talvez seja mais fácil fazer uma alusão à série House of Cards. Um impeachment é protocolado no congresso nacional quando se detém evidencias de algum tipo de crime cometido pelo presidente. Comprovada a culpa, este é substituído pelo próximo político na linha sucessória: o vice-presidente. Isso muda a forma de comissionamento dos cargos? Não. Isso muda a representatividade (estadual/distrital)? Não. Isso muda o financiamento de campanha? Não. Isso tira do novo presidente prerrogativas sob cargos em companhias Estatais? Não. Isso dá um choque de gestão? Não. Estes e alguns outros temas devem ser tratados no âmbito de uma reforma política, necessária na tentativa de coibir a corrupção e mais eficaz neste objetivo do que um impeachment.

E se?
Mas e se um impeachment realmente acontecer no Brasil? Primeiramente ele não será fruto de nenhuma manifestação. Sinto informar que um impeachment só acontece se o Congresso Nacional desejar e realmente se convencer que ele (o Congresso) será beneficiado pelo alto custo político de um processo desse porte. Collor caiu porque não cedeu ao Congresso, e não por que as pessoas se pintaram nas ruas.

Digamos que isso ocorra. A primeira impressão no âmbito internacional será de que o Brasil tem uma democracia fraca, onde um presidente é deposto (legalmente, ok. mas ainda deposto) numa espécie de democracia à la carte, onde eu desejo a troca do presidente se eu não estiver contente ou se não tiver sido o meu candidato. A reação disso? O dólar dispara de R$ 3,10 para R$ 4,50. Bom pra mim, bom para a indústria, mas ruim para as compras no exterior (vide texto "Mas afinal, o que representa o câmbio", de 11/03/2015).

Com a taxa de câmbio a R$ 4,50, o novo Presidente Temer, em algum momento, vai se ver obrigado subir a taxa de juros para atrair mais dólares para o mercado brasileiro (como já foi dito no texto do dia 11/03/2015, temos um crescimento baseado em poupança externa), o que vai novamente na contra-mão da produção e desenvolvimento brasileiro. No curto/médio Brasil nenhum impacto pro "Muda Brasil".

Teremos também uma espécie de tríplice coroa pmdebista na política brasileira: na Presidência da República, Presidência do Senado e na Presidência da Câmara dos Deputados. Respectivamente, Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Do ponto de vista da governabilidade (hoje afetada), ótimo. Do ponto de vista democrático da contraposição de Poderes, o pior cenário possível.

Mas e a tão carecida reforma política? Mudar o financiamento de companha e diminuir a intervenção privada na política? Nada. Repensar a a representatividade no congresso aproximando eleitores de eleitos e barateando as campanhas? Nada. Repensar os critérios de validação de partidos/coligações para cada eleição e evitar uso de dinheiro público para representatividades mínimas? Nada.

Se o cenário da tríplice coroa pmdebista e NENHUMA mudança política interessa a alguém, esta pessoa deve sim ir às ruas e gritar "IMPEACHMENT JÁ". 

Agora, se a discussão sobre reforma política lhe apetece mais e você acha que o Brasil precisa modernizar sua forma de gestão pública, então também vá às ruas. Mas grite "REFORMA POLÍTICA". Mais que isso, leia, se atualize e estude um pouco. Acompanhe também as propostas que circulam no âmbito da Comissão Especial de Reforma Política.PEC 352/2013

quarta-feira, 11 de março de 2015

Mas afinal, o que representa o câmbio?

Blog do Capucci


Sem delongas, reinauguro este blog incentivado pelo baixo nível nas discussões políticas que tomaram conta da internet desde meados de 2014. Sem a arrogância de achar estes pensamentos verdades absolutas, os adiciono à reflexão sob uma escrita simples na intenção de esclarecê-los, e não mantê-los como barreiras à discussão.


Reflexões sobre o dólar

Contexto
Por cerca de 9 anos presenciamos uma forte valorização do real frente ao dólar, que levou o câmbio da faixa dos então R$ 2,00 para uma manutenção na faixa dos R$ 1,60, R$ 1,70. Há pelo menos 5 anos a indústria (setor responsável pela geração e distribuição de renda numa economia capitalista) chama atenções aos níveis excessivamente valorizados da moeda brasileira. 

Lembro que taxas de câmbios excessivamente e artificialmente baixas, como a observada entre 2004 e 2011 (com momentos de pico com a crise de 2008/2009), são combatidas pelas principais economias do mundo por tirarem a competitividade de seus produtos no mercado externo e aumentarem a competitividade do importado em seus mercados locais, a citar China e Estados Unidos. A união européia por ter grande parte dos seus Estados membros amarrados pelo tratado de Maastricht possui pouca margem de manobra, em níveis nacionais, na política monetária.

Nos últimos 8 meses foi observado um movimento antagônico a este que levou a taxa de câmbio brasileira ao nível de R$ 3,10 no início de fevereiro. Contudo, essa desvalorização (importante para a indústrias de transformação) não foi obra de uma macroeconomia que desse conta de conter a sobrevalorização do real, mas fruto de especulações político-financeiras. 

Mas afinal, o que impacta e representa o câmbio?
Um dólar alto sem dúvidas encarece o consumo imediato de bens importados, i.g. iPhones, iPads, perfumes, cosméticos, aquela compra no amazon ou no aliexpress. Claro, também encarece as férias em Miami e Nova Iorque. Além do consumo das classes média e alta, a subida do câmbio brasileiro encarece o petróleo que necessita ser importado para produção de gasolina (sendo um país extremamente dependente do modal rodoviário, gerando um efeito inflacionário considerável). Dois pontos de esclarecimento: o Brasil não é autossuficiente em petróleo, ou seja extremamente dependente do óleo importado; e nossa extração de petróleo, em sua maioria, é do óleo denso, indicado para outros derivados mas inapropriado para gasolina, o que torna a produção deste produo mais dependente ainda do petróleo importado (o tema gasolina será abordado num outro momento).

No senso comum brasileiro, a nossa taxa de câmbio é um indicador direto e claro da estabilidade e força da economia/governo. Mas afinal, o que impacta e representa o câmbio? São estas algumas  das questões que sugiro reflexão sob a ótica dos Interesses financeiros; do Viés Político; da Indústria Brasileira e da Opinião Pública.

Interesses do mercado financeiro. Costuma-se tirar sarro dos expoentes esquerdistas que apontam o mercado financeiro ou o capital internacional como vilões de uma economia emergente. O sarro é oriundo de um certo nível de miopia econômica e/ou ingenuidade em acreditar que o mercado está se autorregulando de forma harmoniosa. É notório que as instituições financeiras são sediadas nos tradicionais países capitalistas e seus interesses no Brasil são claros: nossos altos juros. Numa lógica simples, a retirada de capital dos investimentos brasileiros cria uma escassez de dólares no mercado cambial ao passo que joga o índice da nossa bolsa de valores para baixo. Essa retirada de dólares resulta na depreciação do câmbio brasileiro por escassez de oferta, conceito econômico básico e esse câmbio não se torna um indicador direto de qualquer tipo de recado que o mercado nos queria dar.

O Brasil, usuário do modelo de crescimento com base em poupança externa (endividamento externo), precisa de dólares para financiar suas importações, se alavancar e segurar a taxa de câmbio, componente importante para controle da inflação dado o nível de participação do importado no mercado brasileiro, que por sua vez é cada vez maior dada a sobrevalorização do real. Neste cenário, o Banco Central precisa atrair dólares de volta para a economia brasileira. A forma mais eficaz de fazer isso é com aumentos da taxa de juros, representando maior renda para grandes investidores que, para gozar dos altos rendimentos, voltam seus dólares ao mercado brasileiro suprindo a escassez de oferta. Bagunçar a macroeconomia brasileira é lucrativo, e uma taxa de câmbio maior ou menor nem sempre pode ser concluída em economia forte ou fraca.

Tendo uma macroeconomia dependente do modelo de crescimento com poupança externa (atração de dólares), o Brasil não consegue manter um longo período de rebaixa dos juros pois isso afugenta os dólares da economia. É necessária uma macroeconomia mais independente da atração de dólares, logo independente na formulação de política monetária.

Viés político. Para observador atento é clara a convergência de interesses entre as lideranças dos principais bancos atuantes no brasil (nacionais e estrangeiros) e a especulação sobre a moeda e os juros brasileiros. São capitalistas financeiros, é normal que assim sejam. Sem pensar num complô ortodoxo direitista, agentes do capital especulativo (que não é uma corporação, mas simboliza grupos com interesses na especulação financeira e rendimentos) têm preferencias e identificações políticas, e no caso no Brasil não é a atual administração, mas a oposição que representa maior liberalismo ao sistema financeiro e ao comércio internacional. Basta uma lida comparativa nos dois últimos principais programas de governo para constatar este fato antes de alegar que hoje direta e esquerda se fundiram.

Um dos motivos dessa preferência é a regulação ao sistema financeiro, articulada por um lado como necessária e vista como excessiva por outro. Outro ponto importante da preferência é a identificação política com governos mais ortodoxos que atuem numa agenda economicamente liberal, agenda esta compartilhada em menor grau pela atual administração que tem uma visão desenvolvimentista. Isso pôde ser notado na corrida eleitoral quando o iBovespa caía e o dólar subia a cada pesquisa favorável à reeleição. Esses dois indicativos eram reflexos da retirada de investimentos estrangeiros do Brasil, e a sociedade os interpretava como indicativos de fraqueza direta, e não de uma especulação cambial e política.

Indústria brasileira. A taxa de câmbio de equilíbrio para a indústria de transformação brasileira é estimada em cerca de R$3,10. Isso não se trata de proteção ou excesso de incentivos, como comumente o tema dólar é tratado na imprensa local. Todos os principais países desenvolvidos têm um tiveram por determinado tempo políticas de desvalorização como forma de incentivar diretamente sua produção, uma vez que encarece o produto importado e barateia o produto nacional no mercado externo, ganho na defesa e no ataque.

Exemplos recentes podem ser citados, como o caso do excesso de liquidez ao dólar dado pelo governo estadunidense que depreciou o dólar frente às principais moedas comerciais. Isso tornou os produtos americanos mais competitivos no exterior, fato fundamental para a volta de algumas cadeias produtivas aos Estados Unidos e para a retomada da economia local. Outro exemplo é a China, que usou por muito anos, sobretudo entre 2003 (sua entrada na OMC) e 2012, uma taxa de cambio excessivamente desvalorizada (alto custo do dólar na China) como forte arma para consolidação do potencial exportador chinês, sem se preocupar com o custo dos produtos importados mesmo quando o país aumentou sua demanda por commodities. Esses dois casos são exemplos de que agir sobre o câmbio não é nenhum favor, como já fora mencionado pela equipe econômica brasileira, mas parte importante de uma política econômica completa.

Opinião pública. A opinião pública brasileira, sobretudo classes média e alta, se acostumou a uma taxa de câmbio sobrevalorizada que incentivou o consumo imediatista de bens importados e propiciou gastos no exterior oriundos de turismo como nunca antes observados. O turista brasileiro só perde em gastos nos EUA para o turista chinês. Ao se deparar com desvalorizações cambiais a primeira sensação é de perda de poder de compra externa, atrelada a um sentimento de que quanto mais valorizado o câmbio, mais forte está o país e melhor para todos.

Sobrevalorização do câmbio
O dólar sobrevalorizado no caso brasileiro é proveniente, em parte considerável, do que se chama de Doença Holandesa. Fenômeno observado em países emergentes exportadores de produtos básicos em períodos de altas nos preços (geralmente commodities, sendo seus preços internacionais pouco dependem destes países) que inflam os números de exportação, garantem superávits comerciais temporários e inundam o mercado de dólares causando sua depreciação e uma sobrevalorização da moeda local. Esse movimento é referenciado como uma doença pois não só inibe as exportações de bens manufaturados como também dota de competitividade extra os produtos importados. Sobre os bens manufaturados, reitero a importância da indústria de transformação numa economia pela sua geração e descentralização de renda.

O fenômeno da doença holandesa e da sobrevalorização cambial pôde ser observado de perto no período em que o boom das commodities foi presenciado (puxados pela demanda chinesa) sobretudo entre 2004 e 2009. Neste período, o Brasil  obteve cifras recordes de exportação graças a estes aumentos de preço.

Superávits comerciais, crescimento baseado em poupança externa e no consumo (em detrimento da produção), dólar sobrevalorizado utilizado como âncora cambial e uma política populista no que diz respeito a gastos públicos (programa sociais, isenções de impostos e subsídios à gasolina) formaram os precedentes da atual crise produtiva brasileira. Nesse cenário, de pouco adianta os clamores do setor privado por rebaixa nos juros e previsibilidade cambial, resultantes e não causas de uma má política econômica. Deve ser repensada toda a macroeconomia brasileira, real variável independente da crise econômica que o Brasil está entrando.

Leituras indicadas e referenciadas: